Jornal do Brasil

ABRE-TE, SÉSAMO!

Cada vez mais o homem moderno se torna escravo das senhas de acesso. Haja memória para decorar tantas combinações

Nunca, na história da humanidade, o homem teve tantas informações a memorizar, como nos tempos atuais. Além de estar antenado no trabalho, na data do pagamento das contas, nas preocupações com os filhos e com o lar, ele tem, ainda, de decorar diversas senhas que, por muitas vezes, são o requisito básico para que todo este processo possa ser realizado. Pois é, o fato é que nos tornamos dependentes de um sistema que engloba números, símbolos e letrinhas, cujas combinações são fundamentais nas horas em que você mais precisa.

É verdade que a informática, a internet e os celulares também contribuíram para a proliferação desmedida dos códigos de acesso. São senhas para entrar em rede, ler a caixa postal, conferir o extrato bancário, participar de um chat, comprar um livro, um CD, ouvir o correio de voz do celular, ufa! Senhas, senhas, senhas...E há outro jeito?

O analista de sistemas Roberto de Brito Nunes acredita que a saída para o problema referente à quantidade de senhas seria a implementação de uma tecnologia que agrupasse um número de páginas e, para acessá-las, os usuários teriam de digitar apenas um código.

A Microsoft está tentando alavancar um projeto como este, desde o ano passado, por meio do .NET Passaport (www.passaport.com). Nessa página, você se inscreve com um único login e senha e tem acesso a vários sites de e-commerce cadastrados. Mas até agora a idéia não rendeu bons lucros ao bolso de Bill Gates, já que, para participar da novidade, os sites têm de pagar uma taxa. Para o usuário, o serviço é gratuito.

Fique esperto -

Alguns sistemas alternativos estão sendo estudados como boas possibilidades para substituir as senhas daqui a alguns anos. Tecnologias como o SmartCard e a Biometria (leia box na página 2) podem representar boas opções no futuro, mas ainda esbarram no alto custo das operações.

Bem, mas enquanto o problema não tem solução, o jeito é ser inteligente e encontrar formas de bolar códigos não tão difíceis a ponto de você esquecer, e nem tão fáceis (como a data do aniversário), que qualquer um possa descobrir sem raciocinar muito.

Nunes acredita que as combinações entre números, letras e símbolos são uma boa alternativa e dá uma dica: ''Para as páginas mais simples costumo usar uma única senha. Já para as que pedem mais dados pessoais, como as de e-commerce, utilizo combinações entre símbolos e letras''. O analista ainda completa dizendo que para um outro grupo de sites, cujas informações são extremamente confidenciais, cria frases (que somente fazem sentido para ele, é claro) e compõe senhas formadas pela primeira letra de cada palavra. Nada mais essencial para quem tem, nada mais nada menos, que 25 senhas. Detalhe: todas elas memorizadas.

Internetiete -

Usuária da rede desde 1995, a cantora Rita Lee www.uol.com.br/ritalee se define como ''internetiete''. Possui dez senhas, sendo que sete delas são só de acesso à net. E para memorizá-las? ''Outro dia esqueci a letra de Ovelha Negra, portanto não posso confiar na minha memória. Anotei todas as senhas num papelzinho, que carrego feito escapulário... se um dia perder esses dados só me resta tatuá-los em algum lugar do corpo, hehehe...''

Rita Lee acredita em métodos mais modernos de evitar fraudes. ''Cada ser humano tem uma impressão digital única, uma íris única, um DNA único. Gostaria de portar um chip embutido no corpo com todas essas informações para os momentos em que eu precisar provar que eu sou eu.''

Organize-se!-

O engenheiro eletrônico e professor do MBA de Marketing da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), Nelson Lerner, não concorda com o sistema de senhas. Para ele, ao criar os códigos, as empresas e sites empurram para o consumidor a responsabilidade de evitar fraudes. ''É uma forma de assumirem a vulnerabilidade do sistema. É claro que a possibilidade existe, mas não é culpa do usuário se a senha cair na mão de alguém''.

Lerner também sugere que o usuário crie conjuntos de senhas divididos de acordo com a importância dos serviços. ''Quem não conseguir decorar as senhas, deve anotá-las com códigos''. Mas cuidado: não vá confundir com a própria senha ;-)

Para evitar que as pessoas tivessem de decorar vários códigos de acesso aos serviços do portal, o Yahoo! criou, em 1995, um sistema no qual o internauta utiliza apenas uma senha para acessar chats, e-mail, shopping, leilão, entre outros. De acordo com o presidente do Yahoo! Brasil, Bruno Fiorentini, esta prática facilita a vida do usuário porque, além de acabar com o problema de confusão de códigos, ele se lembra com muito mais agilidade.

Fiorentini tem 20 senhas e garante que nunca teve problemas para empregá-las. ''Meus códigos são combinações entre letras e símbolos. A chave de tudo é a organização.

Sem medo do perigo -

O escritor Mário Prata www.anjosdeprata.com.br - que em 2000 escreveu o livro Anjos de Badaró pela internet - não tem a mínima dificuldade para lidar com senhas. Não que ele tenha se revoltado com o sistema e se recusado a seguir as regras, mas porque, simplesmente, emprega um único código para todos os serviços que realiza, desde o acesso a bancos, até sites de e-commerce. Mas não vá pensar que ele é bobo. A cada três meses, Prata altera a combinação, sempre composta por seis letras e um número.

Para ele, a internet ainda tem muito a evoluir e com ela, o sistema de códigos de acesso. ''A internet é muito jovem e acredito que no futuro os usuários terão uma única senha para tudo''.

Trapalhadas dos esquecidinhos

Organização não é uma palavra que faz parte do dia-a-dia do designer Bruno Correa. Ele tem apenas três senhas, duas de banco e outra de acesso ao correio de voz do celular. Mas, além de nunca ter conseguido memorizá-las, já passou por situações delicadas em função da confusão que faz entre os códigos.

Ele conta que, certa vez, ao voltar para casa depois de uma noitada, sem um tostão no bolso e morto de fome, passou num caixa eletrônico para retirar dinheiro. Logo na primeira tentativa, a máquina avisou que a senha estava errada. Como seu estado etílico não era dos melhores, não conseguiu lembrar-se do número e arriscou um outro. Novamente não deu certo, só que desta vez a máquina avisou que se vacilasse pela terceira vez seu cartão seria bloqueado. Conclusão: desistiu na segunda tentativa e voltou para casa a pé e com fome.

Em contrapartida, a aposentada Cathia Maria Cordeiro Reis, de 53 anos, garante que não tem problemas com as dez senhas que lida diariamente. Deste total, aplica a metade na internet. Mas tanta segurança também não impediu que ela passasse por maus momentos diante de um caixa eletrônico. Além de repetir a senha incorreta por três vezes e ver seu cartão ser engolido pela máquina, com o nervosismo, esqueceu o número do próprio telefone para pedir socorro aos filhos. ''Acabei voltando para casa a pé, porque não tinha dinheiro nem para o ônibus'', relembra. Depois do episódio, a aposentada anda com algumas senhas a tira colo.

De olho no que vem por aí

Não há previsão para que o sistema atual de senhas seja substituído por algum método mais moderno. Mesmo assim, já é possível arriscar quais serão as tecnologias que, no futuro, prometem mais segurança e facilidade para o usuário.
O SmartCard deve revolucionar o comércio eletrônico nos próximos anos. O objeto é um cartão de plástico contendo um microprocessador completo com memória RAM, capacidade de executar algoritmos de criptografia e armazenar login, senha, assinatura digital, saldo ou qualquer outro tipo de informação definida pelo sistema. Assim, basta inserir o SmartCard na leitora sem que o usuário precise digitar sua senha. O código fica validado por meio de um protocolo previamente definido pelo programa.

Se o cartão contiver a assinatura digital, pode ser usado para qualquer tipo de transação, como comprovante de identidade, por exemplo, podendo substituir todos os sistemas de identificação atuais. Caso contenha, também, as informações bancárias do dono, tem a capacidade de funcionar como cartão de crédito.

Caso alguém tente violar os dados, o chip do processador do SmartCard automaticamente destrói as informações armazenadas.

Olho no olho -

Os sistemas biométricos consistem na utilização do ser humano (impressões digitais, voz, retina, íris) como sistema de autenticação. Apesar de sua evolução, eles ainda têm de percorrer um longo percurso antes de serem utilizados em larga escala.

As principais dificuldades na utilização desses sistemas são: a certeza da unicidade do sistema escolhido; a convivência com a mudança natural do ser humano - a voz, por exemplo, muda conforme a saúde e o envelhecimento. Impressões digitais também podem sofrer alterações por corte; o sistema precisaria, ainda, ser resistente a formas mórbidas de roubo, como o corte de um dedo ou a gravação da voz; a possibilidade de falsificação de retinas e impressões digitais.

Apesar dos problemas, os sistemas biométricos tendem a ser muito seguros pois são, teoricamente, pessoais e intransferíveis. Ainda assim, devem ser combinados com um sistema de criptografia para a transmissão da validação em acesso remoto (para evitar roubo da imagem e sua posterior utilização).

Até hoje a biometria sido empregada em sistemas de segurança físicos (acesso a uma sala, por exemplo) e tem pouca aplicação em redes (internet, banco etc...)

Data: 10/1/2002
Editoria: Internet
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Por: FERNANDA NIDECKER